
A Disney reforçou sua política de retorno ao escritório e alguns funcionários das áreas de tecnologia e produto que não cumprirem a exigência de quatro dias de trabalho presencial por semana podem enfrentar medidas disciplinares, incluindo demissão.
A notícia sobre o retorno ao escritório na Disney reacende uma discussão que continua presente nas empresas: qual é o papel do trabalho presencial na construção e no fortalecimento da cultura organizacional?
Segundo reportagem publicada pela WDWNT, baseada em informações divulgadas originalmente pelo Business Insider, alguns funcionários remotos das áreas de tecnologia e produto foram informados de que deverão seguir a política de quatro dias por semana no escritório.
A consequência para quem não cumprir a determinação chama atenção. Mas há um contexto importante: a política de trabalho presencial da Disney não começou agora.
Em janeiro de 2023, Bob Iger comunicou aos funcionários híbridos da Disney que, a partir de março daquele ano, deveriam trabalhar presencialmente de segunda a quinta-feira.
Na época, Iger relacionou a decisão a aspectos como criatividade, cultura e desenvolvimento profissional, especialmente relevantes para uma companhia cuja operação depende intensamente de colaboração e criação.
Por isso, o movimento atual pode ser entendido mais como um reforço da política de retorno ao escritório da Disney do que como o fim repentino do home office na companhia.
E essa diferença é importante.
A discussão deixa de ser simplesmente:
Home office ou trabalho presencial?
E passa a ser:
Qual modelo de trabalho sustenta a cultura que uma organização decidiu construir?
Existe um risco em transformar a discussão sobre trabalho presencial e cultura organizacional em uma defesa automática do escritório.
Trazer as pessoas de volta ao escritório não significa, automaticamente, fortalecer a cultura.
Uma empresa pode ter centenas de colaboradores trabalhando no mesmo prédio e, ainda assim, conviver com silos, pouca colaboração, baixa confiança, lideranças distantes e equipes que praticamente não interagem.
Presença física não é sinônimo de conexão.
Se uma organização exige que seus colaboradores estejam no escritório, precisa existir uma razão clara para que eles estejam ali.
O ambiente presencial precisa criar oportunidades que justifiquem essa escolha: colaboração, troca de conhecimento, desenvolvimento, criatividade, aprendizado por observação e fortalecimento das relações entre líderes e equipes.
Caso contrário, corremos o risco de reunir centenas de pessoas em um escritório apenas para que cada uma passe o dia olhando para a própria tela.
Grande parte da cultura de uma empresa é aprendida não apenas por aquilo que é formalmente ensinado, mas pelo que as pessoas observam acontecendo todos os dias.
Como um líder reage quando algo dá errado?
Como uma decisão difícil é tomada?
Como um cliente é tratado diante de um problema?
Quais comportamentos são reconhecidos?
O que acontece quando alguém quebra um padrão?
Quem é promovido?
Quais atitudes são toleradas?
Esses sinais ajudam os colaboradores a entender, na prática, o que realmente importa naquela organização.
É por isso que cultura organizacional não pode ser reduzida à missão, visão e valores escritos em uma apresentação.
Cultura é aquilo que a liderança define, demonstra, reforça e transforma em sistema.
E o modelo de trabalho escolhido pela empresa também faz parte desse sistema.
Talvez essa seja uma das principais reflexões provocadas pela decisão da Disney.
Não basta determinar quantos dias uma pessoa precisa estar no escritório.
É preciso responder:
O que queremos que aconteça quando essas pessoas estiverem juntas?
Se o objetivo é colaboração, como os espaços, processos e agendas estimulam essa colaboração?
Se o objetivo é criatividade, existem momentos que realmente favorecem a troca de ideias?
Se o objetivo é desenvolvimento profissional, os líderes estão mais próximos de suas equipes?
Se o objetivo é fortalecer a cultura, os comportamentos desejados estão sendo demonstrados e reforçados no cotidiano?
Porque obrigar alguém a se deslocar até o escritório para passar oito horas em reuniões virtuais dificilmente fará com que essa pessoa perceba valor na decisão.
O escritório não pode ser apenas um endereço.
Ele precisa cumprir uma função dentro da experiência do colaborador e da cultura da organização.
Não existe uma única resposta que sirva para todas as organizações.
O modelo pode ser presencial, híbrido ou remoto.
O mais importante é existir coerência entre a cultura que a empresa deseja construir, os comportamentos necessários para sustentá-la e o modelo de trabalho adotado.
Toda organização estabelece comportamentos que deseja estimular e, consciente ou inconscientemente, cria sistemas que facilitam ou dificultam esses comportamentos.
Políticas de trabalho, processos de contratação, reconhecimento, promoção, treinamento, comunicação e até a organização dos espaços físicos enviam mensagens sobre aquilo que realmente importa.
Por isso, talvez a primeira pergunta de uma liderança não devesse ser:
“Quantos dias devemos exigir no escritório?”
Mas:
“Que comportamentos queremos fortalecer?”
E, somente depois:
“Qual modelo de trabalho nos ajuda a transformar esses comportamentos em cultura?”
É fácil olhar para a política de retorno ao escritório da Disney e transformar a conversa em uma disputa entre defensores do home office e defensores do trabalho presencial.
Mas existe uma discussão muito maior por trás dessa decisão.
O verdadeiro desafio das organizações é entender como transformar a cultura desejada em comportamento cotidiano.
Porque o cliente nunca verá o manual de cultura da empresa.
Provavelmente nunca conhecerá seus valores corporativos.
Mas sentirá o resultado deles na ponta.
Na forma como um colaborador toma uma decisão.
Na maneira como resolve um problema.
Na autonomia que possui.
No cuidado que demonstra.
Na experiência que entrega.
A cultura é traduzida lá na ponta de uma maneira que o cliente não sabe explicar, mas sente 100%.
Por isso, antes de decidir quantos dias sua equipe deve estar no escritório, existe uma pergunta ainda mais importante:
Que cultura você está tentando construir e quais comportamentos precisam acontecer todos os dias para que ela seja percebida pelo seu cliente?
A discussão sobre o retorno ao escritório da Disney, portanto, vai muito além de home office versus trabalho presencial.
É uma discussão sobre liderança, cultura, comportamento e experiência.
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Por Juliana Oliveira
Juliana Oliveira é Vice-Presidente do Seeds of Dreams Institute, com sede em Orlando, onde lidera iniciativas de treinamento corporativo e imersões globais com foco em excelência em atendimento, Guestologia, Clientologia e Psicologia Positiva. Com mais de 15 anos de experiência internacional em Customer Experience, atuou em empresas globais atendendo clientes na Europa, Ásia, América e Oriente Médio. Estuda profundamente há anos a filosofia Disney de encantamento ao cliente e conhece todos os parques da Disney e da Universal ao redor do mundo, integrando as melhores práticas dessas marcas aos seus programas e imersões em destinos estratégicos para aprendizado prático com grandes marcas. É coautora do livro “Ubbe Iwwerks, o Gênio por trás de Mickey Mouse” e produtora executiva do documentário “O Contador de Histórias”, sobre Walt Disney.
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